Memórias de um infortúnio

Acredito que já era de se esperar o que aconteceu, as coisas na minha vida, de um jeito ou de outro, costumam sempre acabar errado ou de um modo inesperado. Tudo começou com o anuncio da visita do escritor a nossa sala de aula, prevista para o penúltimo mês do semestre:

– Teremos a visita do meu grande amigo e escritos João Anzanello Carrascoza, onde poderemos debater sobre suas duas obras do semestre – A professora, uma senhora muito simpática e comunicativa, até o momento era uma das mais empolgadas pela vinda. E claro, algo novo a ser apresentado sempre é bem vindo. O que não era de se esperar, ou até sim, era o fato de um efeito dominó devastador assolar a minha vida dali pra frente.

Eu já pretendia comprar os dois livros para começar a lê-los, o pagamento estava previsto para o começo do mês. Uma semana antes, um dos vassalos do meu chefe chamou alguns de meus colegas e eu para sua sala, haveria uma reunião e algo de importante a ser dito:

– Pessoal, infelizmente, por conta da operação não estar dando os resultados esperados pelos fornecedores, a nossa diretoria resolveu fazer corte de gastos, e nisto, avaliamos o desempenho de cada um de vocês para ver o que poderia ser feito – Dali em diante, já estava previsto uma maré de merda, e cada palavra entrou como uma farpa indesejada, permanecendo até o momento em que cheguei em casa e me pus a chorar. Como faria com a faculdade? E minhas contas? Meu relacionamento?

Contei ao meu namorado o ocorrido logo após ele chegar do serviço, e como as pessoas acreditam em palavras de consolo para momentos como esse, acreditava ele em um futuro onde tudo ficaria bem, e que sua presença ao meu lado nessa fase difícil permaneceria.

Mas como lágrimas e lamentações não pagam contas, nem alimenta estomago vazio, fui à caça de emprego. Foi como estar em uma savana: vários predadores e uma presa. A crise chegou para todos, ficou mais famosa depois de sua divulgação, pois até então acreditavam apenas estarem em dias de vacas magras. Agora a desculpa pra tudo, é a maldita crise!

Após um longo dia de caminhada no centro de São Paulo, entregando currículos e agendando entrevistas, nada melhor do que voltar para seu lar, e ficar com quem goste de você. Entrei pela porta da frente e foi possível ver que a luz da sala estava apagada, mas uma única luz que parecia vir do banheiro encontrava-se acesa. Eu me dirigi até lá, e a porta estava semiaberta, meu namorado parecia estar tomando banho. Sem anunciar minha chegada, resolvi entrar e aproveitar pra tomarmos um banho juntos. Ao me deparar com o box do banheiro, percebi que não havia apenas uma silhueta, mas duas.

– Mas que porra é essa?!!! – Gritei e de imediato, ambos se assustaram e pararam com a pegação. Meu namorado estava totalmente pelado dizendo que poderia explicar tudo aquilo, ainda ao lado daquele desgraçado, tentando cobrir as partes com a toalha. Ao olhar para a pessoa que estava com ele, reconheci de imediato. Um conhecido nosso, amigo de redes sócias. Antes que eu pudesse fazer algo por impulso, peguei uma muda de roupa e fui para o ponto de ônibus. Passaria a noite na casa de minha mãe.

 

– Continua.

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1 comentário

  1. anisioluiz2008 · novembro 5, 2016

    Republicou isso em O LADO ESCURO DA LUA.

    Curtido por 1 pessoa

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