Caderno de Memórias – Pt. 2

INFÂNCIA

Lembro quando o autor começou a falar de sua infância, e todos viajamos com ele para sua terra natal, onde ali foi possível sentir em cada palavra uma memória, uma lembrança boa longínqua e viva. Dizia ele do tempo no qual ouvia histórias quando criança, mitos de uma cidadezinha pequena em que morou, assim ia acumulando bagagem e memórias para seus livros de algo que vai sendo esquecido no decorrer do tempo. Não sou de uma cidade pequena mas também tínhamos esses tipos de conversas e costumes. Lembro muito bem quando na infância, na qual maior parte foi vivida na rua com a minha turma do bairro, altas coisas aconteciam.

A rua me criou de certo modo, vivi cada mudança que ela sofreu no passar dos anos que ia desde uma casa nova sendo construída até a chegada de um novo vizinho ou vizinha. Nela levei tombos, ralei joelho, corri descalço no asfalto quente, rolei e deitei pois naquele tempo não haviam os perigos de hoje. Quando as crianças saiam pra brincar na rua, ela ganhava uma energia que a deixava viva, e até os adultos arriscavam em colocar a cara pra fora de suas janelas ou se juntar em seus portões para papear e ficar de olho em nós.

Os pais e avós de todos inventavam histórias pra que as crianças não ficassem até mais tarde na rua, como o homem do saco que sequestrava as crianças, ou o homem do fusca preto que também sequestrava crianças inocentes. Alguns ficavam assustados, outros assim como eu arriscavam um pouco ficando até tarde brincando e conversando assuntos diversos. Eram divertidas as brincadeiras que existiam e as que criávamos em nossos momentos de tédio eram as melhores: o entregador de pizza vampiro (de minha autoria); esconde-esconde que sempre era complicado devido o tamanho do quarteirão; queimada que ás vezes acabava com discórdias; corrida entorno do quarteirão onde eu sempre praticamente ganhava todas, dentre outros tipos mais diversos de brincadeiras que uma mente liberta e criativa poderia inventar. Uma delas era “a casa do escadão”, onde todas noites íamos até a tal casa pois lá havia uma dentre outras casas abandonada e assustadora, no qual acreditávamos ser assombrada por uma bruxa. Atiçávamos a casa dela, tacando pedra e gritando para aparecer, e ganhava a brincadeira quem aguentasse ficar mais tempo diante da porta sem medo e correr de volta pra casa. Poucas vezes ganhei, nunca me dei bem com esses lances sobrenaturais.

Mas o que a rua vez de mais importante para mim foi ter me dado a oportunidade de conhecer pessoas, nas suas mais diferentes esferas. Éramos crianças sim e nem conhecíamos a verdadeira vida fora daquele nosso mundo, mas cada um tinha seu jeito e modo de enxergar as coisas, crianças com famílias de lugares e vivências diferentes ao contrário de mim que nasceu e cresceu na Gonçalves Dias, e nisso a rua ganhou sua identidade.

Hoje não existe mais essa alegria, foi substituída pelo desespero de viciados e viciadas e pessoas que só vivem em suas casas que se arriscam a sair e papear na calçada somente pra falar mal do outro ou quando tem jogo do Palmeiras. O único momento em que os vizinhos se veem é quando algo ruim acontece e todos aparecem pra ver, nisso descubro os novos vizinhos e revejo os antigos, revendo tudo o que foi perdido, nisso me resguardo.

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3 comentários

  1. anisioluiz2008 · janeiro 12, 2017

    Republicou isso em O LADO ESCURO DA LUA.

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  2. Devaneius · janeiro 31, 2017

    Ah a infância… Saudades. A melhor das idades, talvez. Nada de contas a pagar, nada de trabalho, as preocupações se limitam ao dever de casa e não deixar a mãe nervosa. Bons tempos 🙂

    Curtido por 1 pessoa

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