Caderno de memórias – Pt. 3

PAIXÃO

Como a vida tem um sabor doce e amargo, vivi coisas desagradáveis na infância. Meu primeiro amor. Creio eu, faça parte da vida de todo ser humano o ato de se apaixonar, um ato inevitável regido pelo coração, e o nome dessa minha paixão era Gabriela, uma garota muito bonita dos olhos cor de mel, cabelos castanhos e longos, rostinho e alma angelical. Na época, ou seja, há 11 anos, tínhamos quase a mesma idade e para minha sorte, da mesma escola e turma.

Ela era demais em vários sentidos, desde o fato de ser quem era até as pequenas coisas, andávamos juntos no recreio, dividíamos lanches e desde aquele tempo nunca vi problema em andar mais com garotas do que com garotos.  Meus amigos nem sabiam o que era ficar apaixonado ou conheceram a paixonite, nem todos tem essa sorte (ou azar), sem contar o repudio por garotas por motivos desconhecidos até hoje, essa frescura de “menino não brinca com menina e vice e versa”. Ou talvez para eles o conceito de paixão fosse apenas bater figurinhas e jogar bolinha de gude, coisas adoráveis de se fazer quando não se tem algo melhor. Mas Gabriela tinha seu jeito único, bem diferente da maioria das garotas, ela era segura de si e tinha um ar de superioridade sem saber que possuía tal mestria. A ingenuidade de uma criança faz com que desconheça algumas verdades da vida, inclusive o verdadeiro significado de namorar e todas regras que regem essa relação entre duas pessoas, e assim permanecia minha vontade de ainda não saber, sobrando apenas aquele sentimento guardado, cujas raízes se fixaram e que desabrochou de verdade durante a vida.

Foi ótimo quando chegamos nas épocas de festas juninas onde todas salas deveriam criar uma barraca para a quermesse da escola e uma apresentação de dança ou algo do tipo, e como o ritmo da festa é um bom sertanejo ou forró, a professora Ângela, que sempre fez questão de me bajular pela ótima conduta em sala de aula, resolveu que deveríamos fazer duplas, onde fiquei justamente com a Gabi, nisso ocorreu ao mesmo tempo uma mistura de felicidade e nervosismo. Os ensaios eram ótimos, mesmo não possuindo coordenação motora básica muito menos ritmo. No aguardado dia das apresentações, ela levou sua mãe e ainda por cima fez questão de nos apresentar como se fossemos mais do que amigos, igual nesses filmes quando a filha apresenta o namorado para a família (foi o que me passou pela cabeça), não sabia nem onde enfiar minha cara. E a apresentação? Não poderia ter sido pior, fiquei nervoso por minha família estar lá e a dela também, então acabei pisando mais vezes na bota dela do que no próprio chão. Vai entender as razões do coração em circunstâncias como essa.

Mas o tempo passa, e com ele as pessoas entram e saem de nossas vidas, ás vezes sem justificativas ou apenas por razões que devem permanecer desconhecidas. Mas cabe a nós escolher se devemos permanecer encouraçados no passado ou seguir em frente. Não sei o paradeiro de Gabriela atualmente, mas torço para que esteja bem e feliz, pois assim estou, e espero que tenha encontrado um amor, pois nele me encontrei e permaneço hoje.

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