Caderno de memórias – Pt. 4

MORTE

Escrever diário é um ato confessional, quase que como se reconhecer um pecador perante um padre mas sem aquele negócio penitência e sentimento de culpa, e nosso reconhecimento vem através das palavras. Carrascoza diz que ser escritor é viver na escuridão, e até o momento ainda procuro entender o que ele quis dizer com aquilo. Mas uma possível interpretação é o fato de não saber onde sua escrita vai te levar ou seja capaz de fazer, existe um força maior nas palavras que acaba nos conduzindo para algo inesperado. Conduzo minhas memórias então para um momento amargo de minha pré adolescência. Passei grande parte na rua e outra na casa de meu avô Pedro, homem trabalhador: de dia era pedreiro e de noite porteiro da igreja a qual minha família e eu frequentávamos. Até o dia em que ele de repente foi internado sem eu nem ao menos saber o motivo, mas minha mãe e minhas tias já sabiam de algo o qual crianças não deveriam saber. Na minha cabeça ele logo voltaria, bem de saúde. Talvez estivesse apenas fazendo uma cirurgia ou exames. Algo do qual me arrependo até hoje é por não tido a oportunidade de visita-lo.

Nossa relação sempre era de um tipo especial mas desconhecido por algumas das partes, talvez a dele, pois em segredo eu adorava nossas tardes. Algo singular que só percebo hoje é o fato de que mesmo quieto ele conseguia dizer muitas coisas, pois eu ficava na porta de sua casa jogando bolinhas de gude esperando-o chegar do trabalho, pra poder entrar e ganhar algo, geralmente uma banana ou um copo de leite. Logo em seguida ele pegava um aparelho de vinil e colocava um disco de hinos daqueles bem antigos e ficava cantarolando enquanto fazias outras tarefas antes de ir deitar para estar descansado na hora do culto, e eu só observava-o do meu canto da pequena sala e sabia que naqueles pequenos momentos, tudo estaria bem.

Certo dia voltando da escola com uma de minhas primas, haviam pessoas reunidas na casa dele, uma delas era minha tia e me chamou para entrar, fui de mochila e tudo, e ao entrar já era possível sentir uma energia estranha no ambiente. Chegando no quarto me deparei com minha vó sentada em um canto entre choros e soluços, e mais ao fundo uma de minhas primas também chorando. Minha tia explicou a razão daquilo: haviam recebido a notícia que meu avô havia ido embora de vez. Não recordo se chorei de imediato, pois até aquele momento nunca havia sido apresentado formalmente a Dona Morte nem seu jeito peculiar e invasivo de trabalhar, mas em seu enterro, ao ver o corpo imóvel, sem vida, pálido e seu caixão descer rumo a uma cova funda, eu entendi tudo aquilo e me pus a chorar como nunca antes. Sabia que as coisas não ficariam bem.

Fiquei com aquilo na cabeça nas semanas seguintes, pensando em como a morte é injusta às vezes, nem nos permitindo uma despedida decente daqueles a quem amamos. Foi então em certa noite, já preparado para dormir, momento em que a mente resolve trabalhar mais, comecei a matutar sobre algo e precisei de uma confirmação de meu pai:

    – Pai! Tenho uma dúvida…se o vô morreu quer dizer que todos vão morrer um dia? – Perguntei e recebi sua resposta naturalmente como se estivesse conversando com um adulto ou com alguém que entendesse do assunto.

    – Sim filho, todos nós vamos morrer um dia! – Minha reação instantânea foi de choque, maior do que na vez em que descobri a inexistência de Papai Noel e Fada do Dente.

    – Até o senhor e a mãe vão morrer um dia?

    – Sim filho, todos nós! – Após aquela resposta voltei para minha cama e chorei mais do que achava possível alguém do meu porte chorar.

 

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1 comentário

  1. Devaneius · fevereiro 11, 2017

    A morte é algo curioso: para alguns, avisa com outdoors de neon que está chegando, e para outros, entra e sai sem mostrar sua presença e, quando percebemos que ela passou por ali, já é tarde demais. Ainda não senti de verdade a falta que um ente querido faz ao morrer, mas se tem algo que posso te dizer, e é algo que disse a minha mãe quando a vi chorar pela morte do pai do mesmo jeito que você chorou pelo seu avô, é que se a hora deles chegou, é porquê em vida já não dava mais, e a pessoa que partiu está melhor assim. Demora, mas pensar assim acredito eu que funciona.

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