Caderno de memórias – Última Parte

INOCÊNCIA

Como grande parte das famílias contemporâneas, meus pais são separados desde os meus oito anos, uma das coisas que não é de fácil entendimento para uma criança mas minha mãe explicou em poucas palavras: De agora em diante seu pai não vai mais morar aqui, mas ainda poderão ver ele – Na minha cabeça não havia um discernimento da situação, eu acreditava que tudo ainda estava bem, mas a cara de ódio da minha mãe dizia outra coisa. Então de quinze em quinze dias, como a juíza havia determinado, meu pai iria buscar meus irmãos e eu para passar o final de semana com ele. Não conseguia raciocinar aquele processo mas aceitei. Quando ia nos buscar, levava-nos a lugares próximos de onde morávamos mas também a lugares legais distantes os quais somente ele conhecia mas resolveu compartilhar conosco, talvez como forma de suprir sua ausência, criar um elo maior. Hoje em dia, os pais costumam preencher esses vazios com dinheiro ou presentes, as quais consideram serem melhores do que um simples afeto. Vai entender.

E como dever de todo pai quando se tem um filho garoto (pelo menos é o que acham) é o de ensina-lo a jogar bola, empinar pipa, coisas de “garoto”. E com o meu não foi diferente, até o momento em que ele captou o quão diferente eu era. Não via graça no que a maioria dos meninos comuns faziam, eu preferiria ler do que ficar queimando a cara no sol chutando uma bola pra lá e pra cá. Assim como o Carrascoza lia muitos poemas, eu lia de quadrinhos à livros de contos e fábulas. A partir de determinada idade a biblioteca tornou-se uma segunda casa e por isso eu tinha a fama de ser o famoso “viadinho” da turma, perdi amizades por isso, mas descobri em determinada época a cagar a andar para determinadas opiniões fúteis.

Agora confessarei algo a você: eu roubava livros da biblioteca. Não me orgulho desse ato, mas fazia e sentia a necessidade de tê-los, sentia que as histórias deveriam pertencer a mim e que ninguém deveria ter acesso a eles. Notando esse meu gosto exagerado pela leitura, os presentes deixaram de ser bonecos inúteis para serem gibis, livros infantis, jogos de raciocínio e outras coisas que me davam satisfação. Meu prazer conseguiu ser saciado com essas pequenas coisas durante um bom tempo.

Hoje já no começo da fase adulta, olho pra trás e encaro tudo isso como um grande ponta pé na minha criação principalmente do meu caráter e do meu eu. Existem coisas a qual sou grato por ter acontecido, claro que me referindo as boas, mas aprendi, ao menos creio que aprendi mais nas ruins. Perder um parente acontece com todos e continuará acontecendo até chegar o meu momento; uma paixão não correspondida acontece ainda hoje com qualquer pessoa (e em qualquer idade); uma separação conjugal indesejada ficou mais comum à medida que as pessoas não se suportam mais e as palavras perderam o valor; uma amizade perdida devido ao tempo, são apenas momentos ensinando que devemos seguir em frente e viver, um tapa na cara que desperta pra algo maior: aprender a aproveitar o agora ao máximo sabendo escolher as pessoas certas para compartilhar nossos melhores momentos.

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1 comentário

  1. Devaneius · fevereiro 17, 2017

    Meus pais também são separados, mas confesso que não lembro de como eu reagi quando o meu pai saiu de casa. Acho que não foi tão pesado, eu era mais próximo da minha mãe na época. O que eu não gostei foi do efeito colateral disso anos depois… Enfim, como diz a música de Maria Rita (Encontros e Despedidas) – “Todos os dias é um vai e vem, a vida se repete na estação, tem gente que chega para ficar, tem gente que vai para nunca mais, tem gente que vem e quer voltar, tem gente que vai e quer ficar, tem gente que veio só olhar, tem gente a sorrir e a chorar, e assim, chegar e partir.” Para o que finaliza seu belo texto e como diz na música, uma estação de trem é o que melhor define a vida.

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